Capítulo VII — Um Encontro Inesperado

A manhã erguia-se com uma suavidade quase melancólica, como se o próprio céu hesitasse em despertar completamente. As cortinas, agitadas por uma brisa leve, deixavam entrar uma luz pálida que repousava sobre os móveis antigos da sala, revelando o pó fino acumulado pelo tempo — testemunha silenciosa de dias esquecidos.

Helena encontrava-se junto à janela, com os olhos perdidos além do jardim. Havia algo em sua expressão que sugeria mais do que simples contemplação; era uma espécie de espera, indefinida e persistente, como se aguardasse uma palavra jamais dita.

— Ainda pensas nele? — perguntou Dona Margarida, sem erguer a voz, como quem já conhece a resposta.

Helena voltou-se lentamente, e por um instante pareceu não compreender a pergunta. Depois, com um leve sorriso, respondeu:

— Há pensamentos que não nos pertencem mais, e ainda assim permanecem.

O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Pelo contrário, trazia consigo uma intimidade antiga, feita de convivência e resignação. Lá fora, um corvo pousou sobre a cerca e soltou um breve grasnar, quebrando a quietude do ambiente.

— Recebemos uma carta esta manhã — continuou Dona Margarida, agora aproximando-se com passos contidos.

Helena sentiu o coração acelerar, embora não soubesse explicar o motivo. Cartas, para ela, eram como ecos do passado — carregavam sempre mais do que palavras.

— De quem? — perguntou, tentando manter a compostura.

Dona Margarida hesitou por um momento, como se pesasse a importância da revelação.

— De alguém que julgávamos não mais escrever.

Nesse instante, o tempo pareceu suspender-se. Helena estendeu a mão, mas não para pegar a carta — apenas para confirmar que aquele momento era real.

E, sem perceber, compreendeu que certos capítulos da vida jamais se encerram completamente; apenas aguardam, em silêncio, a coragem de serem retomados.